Quando uma empresa encerra suas atividades, o olhar costuma se concentrar em temas jurídicos, financeiros e trabalhistas. Distratos, rescisões, encerramento de contratos e comunicação ao mercado ocupam o centro da agenda. Porém, existe um ponto crítico frequentemente negligenciado: o que acontece com os equipamentos eletrônicos e com os dados sensíveis armazenados neles.

Casos recentes de encerramento de operações no setor financeiro e tecnológico, como o do Will Bank, ajudam a evidenciar um problema estrutural: desativar uma empresa também gera resíduos físicos, digitais e riscos ambientais e legais.
Em um mundo cada vez mais digital, praticamente toda empresa é, em alguma medida, uma empresa de tecnologia. Isso significa que o encerramento de atividades também envolve o desligamento de servidores, notebooks, dispositivos de rede, celulares corporativos e sistemas de armazenamento de dados.
O tamanho real do problema
Segundo o Global E-waste Monitor, o mundo gerou 62 milhões de toneladas de lixo eletrônico em 2022, um crescimento de mais de 80% em relação a 2010. A projeção indica que esse volume deve chegar a 82 milhões de toneladas até 2030.
O Brasil ocupa posição de destaque nesse cenário negativo. O país é o 5º maior gerador de lixo eletrônico do mundo, com cerca de 2 milhões de toneladas por ano. O dado mais alarmante é que menos de 3% desse volume recebe destinação ambientalmente adequada.
Quando uma empresa encerra suas operações, boa parte desses resíduos surge de forma concentrada e repentina. Data centers são desativados, parques de equipamentos ficam obsoletos e ativos tecnológicos perdem valor operacional praticamente da noite para o dia.
Equipamentos desligados não significam dados eliminados
Um erro comum é acreditar que desligar um equipamento ou formatar um computador resolve o problema dos dados. Na prática, informações sensíveis permanecem recuperáveis em discos rígidos, SSDs e outros meios de armazenamento.
Esses dados podem incluir:
- Informações cadastrais de clientes
- Dados financeiros e bancários
- Registros de transações
- Documentos internos e estratégicos
- Credenciais de acesso e chaves digitais
Mesmo após o encerramento do CNPJ, a responsabilidade sobre esses dados pode permanecer. A LGPD não deixa de existir quando a empresa fecha, e vazamentos posteriores podem gerar sanções, processos judiciais e danos reputacionais.
Risco ambiental e risco jurídico caminham juntos
O descarte incorreto de equipamentos eletrônicos gera um problema duplo.
Do ponto de vista ambiental, resíduos eletrônicos contêm substâncias perigosas como chumbo, mercúrio, cádmio e retardantes de chama. Quando descartados em aterros comuns ou de forma irregular, esses materiais podem contaminar o solo e os lençóis freáticos ao longo dos anos.
Do ponto de vista jurídico e reputacional, equipamentos descartados sem tratamento adequado podem se tornar vetores de vazamento de dados, fraudes e uso indevido de informações.
O risco é silencioso: muitas vezes o problema não aparece no mesmo dia, mas pode surgir meses ou anos depois.
Encerramento responsável: o que não pode faltar
Um processo de desativação empresarial responsável deve incluir:
- Inventário completo dos ativos eletrônicos
- Classificação dos equipamentos por tipo e risco
- Procedimentos certificados de eliminação ou sobrescrita de dados
- Destruição física quando necessário
- Logística reversa com recicladores licenciados
- Emissão de certificados de destinação e destruição
Esse processo reduz riscos ambientais, legais e reputacionais, além de alinhar a empresa a boas práticas ESG.
Conclusão
Encerrar uma empresa não significa encerrar responsabilidades. A gestão adequada do lixo eletrônico e dos dados sensíveis é parte essencial de um encerramento ético, sustentável e em conformidade com a legislação.